Tempo Perdido (Autor : Cleber Isaac Filho)
Ano 2025; ele acorda em uma sala de hospital. Dois enfermeiros percebem: o paciente saiu do coma.Estava desacordado desde 1º de janeiro de 1989, depois de sobreviver a um naufrágio no último dia do ano.
Naquele réveillon, o mar levou a vida de uma atriz chamada Yara (entidade das águas).
Confuso, ele pergunta onde está. Que dia é hoje. O que aconteceu.— “O senhor ficou quase 40 anos em coma.”O desespero vem rápido: — “Meu Deus… eu perdi a minha vida.
”Tentando se agarrar à memória, ele diz: — “Eu lembro de tudo. Do Lula. Ele era um forte candidato.
Quase 40 anos depois, ele já deve ter morrido, né?”O enfermeiro responde, com naturalidade: — “Não. Ele é o presidente.”
O choque é imediato. — “E o Collor? O caçador de marajás?”— “Ainda é político. Só parou por um tempo porque foi preso por corrupção.”
O paciente ri de nervoso. Nada faz sentido— “A gente se divertia com futebol… 88 teve Olimpíada. Romário, Bebeto… Eu só vou ver fita VHS desses caras?”— “VHS não existe mais. Mas o Romário existe. E ainda joga.
”Ele passa a mão no rosto, perdido: — “Que mundo louco… não mudou nada.”Desesperado, pede algo familiar:
— “Queria ouvir Legião Urbana… Cazuza…” mas claro que vocês nem imaginam quem sejam…— “‘Tempo Perdido’ é uma das músicas mais ouvidas no Spotify.”
-“Sporti… o quê?”Já quase chorando, tenta um último porto seguro: — “Na época tinha o Especial do Roberto Carlos; vocês nem imaginam a emoção” — “Tem. Até hoje.
”Confuso ele pede: — “Então liga a televisão. Qual é a novela?”
Os enfermeiros se olham.— Vale Tudo.
O paciente grita : Cadê a câmera ? Isso só pode ser pegadinha do Silvio Santos; que claro está vivo !
Os enfermeiros se olham e aplicam calmante no paciente.
(Trecho do livro 1988; que será lançado em abril )