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O Dia Seguinte do Cacau Brasileiro

Por Paulo Peixinho, produtor de cacaupaulo@cacaupeixinho.com “Yeridá letzórech aliyá” (ירידה לצורך עלייה)“A descida é parte necessária da subida (adágio judáico). Quarenta anos após a maior safra da história do Brasil, o setor cacaueiro vive um momento raro. Pela primeira vez desde então, observa-se uma mobilização orgânica e ampla dos produtores, impulsionada pela comunicação instantânea e […]

Foto: Getty Images

Por Paulo Peixinho, produtor de cacaupaulo@cacaupeixinho.com

“Yeridá letzórech aliyá” (ירידה לצורך עלייה)“A descida é parte necessária da subida (adágio judáico).

Quarenta anos após a maior safra da história do Brasil, o setor cacaueiro vive um momento raro. Pela primeira vez desde então, observa-se uma mobilização orgânica e ampla dos produtores, impulsionada pela comunicação instantânea e pelas redes sociais.

A base produtiva está conectada, informada e consciente de seu papel na cadeia.Mas a pergunta estratégica não é sobre o agora.

É sobre o dia seguinte.

O que acontecerá quando esse movimento arrefecer? As ações governamentais resolverão os problemas estruturais do setor?

Ou estaremos, mais uma vez, reagindo às oscilações do mercado internacional?É preciso reconhecer duas verdades fundamentais. Primeiro: governo não resolve questões de mercado.

Pode mediar, organizar, fomentar crédito e pesquisa, mas não substitui estratégia econômica. Segundo: há um descompasso inevitável entre o ciclo biológico do cacau — plantar hoje para colher anos depois — e a volatilidade dos preços nas bolsas internacionais.

Essa incompatibilidade estrutural e exige inteligência estratégica, não respostas conjunturais.Historicamente, o cacau brasileiro foi tratado como commodity. Enquanto essa lógica prevalecer, o produtor continuará sendo tomador de preço, vulnerável às flutuações externas e dependente de ciclos de alta e baixa.

É preciso romper esse paradigma.

O cacau é mais do que commodity. É fruta. É alimento. É base de uma agroindústria sofisticada. É bioeconomia. É floresta produtiva. É ativo ambiental. Quando o enxergamos apenas pelo prisma da bolsa de valores, reduzimos seu potencial econômico e social.O Sul da Bahia reúne condições raras no cenário global para liderar essa transformação.

Há base produtiva consolidada, indústria processadora instalada, centros de pesquisa, universidades públicas e privadas, inteligência setorial, logística com porto e aeroporto. Poucas regiões produtoras no mundo concentram tantas ferramentas estratégicas em um mesmo território.As ferramentas estão postas. O que falta?Talvez falte governança. Talvez falte coordenação. Talvez falte um objetivo comum claramente pactuado. Não se trata de culpar elos da cadeia. Chocolateiros precisam das processadoras. Processadoras precisam dos produtores. Produtores precisam vender seu cacau.

A interdependência é total.O momento exige um plano estratégico de longo prazo, com metas, prazos, recursos e responsabilidades definidas. Um plano que tenha como objetivo a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Um plano que trate renda — e não apenas preço.

Um plano que valorize origem, qualidade, diferenciação e mercado interno. Um plano que transforme a floresta produtiva em vantagem competitiva global.

O Estado pode e deve atuar como mediador desse arranjo, promovendo diálogo e ambiente institucional seguro. Mas a transformação estrutural virá da própria cadeia, organizada e comprometida com uma visão comum.A mobilização atual é histórica. Porém, mobilização sem institucionalização se dissipa. Se este momento não se converter em estratégia permanente, corremos o risco de repetir ciclos já conhecidos: euforia na alta, crise na baixa e busca por soluções emergenciais.A utopia necessária é simples e poderosa: união e diálogo permanentes na cadeia agroalimentar do cacau, chocolate e floresta.O futuro promissor do cacau brasileiro não depende apenas do preço internacional. Depende da capacidade de pensar além dele.O dia seguinte começa agora.

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