Um caso registrado em uma escola pública nesta semana reacendeu debates nacionais sobre intolerância religiosa, educação cultural, liberdade pedagógica e o impacto de conflitos familiares dentro das salas de aula. Um pai acionou a Polícia Militar após descobrir que sua filha, de 9 anos, havia desenhado um orixá como parte de uma atividade artística proposta pela professora. A ação gerou tumulto na unidade, mobilizou equipes de segurança e provocou forte repercussão nas redes sociais.
Como tudo começou
De acordo com informações relatadas por funcionários e confirmadas pela direção escolar, os alunos estavam participando de um projeto pedagógico sobre diversidade cultural brasileira. A atividade incluía conteúdos sobre folclore, mitologias indígenas, cultura afro-brasileira e tradições que compõem a formação histórica do país. A professora teria explicado aos estudantes que os orixás estão presentes na construção cultural do Brasil, assim como personagens da mitologia grega, de contos europeus ou de histórias indígenas.
A proposta era que cada criança escolhesse uma figura cultural para ilustrar. A estudante decidiu desenhar Oxum, orixá da doçura, das águas doces e do cuidado, um dos símbolos mais conhecidos das religiões de matriz africana e amplamente estudado na educação básica como patrimônio cultural.
Revolta do pai e acionamento da polícia
Ao chegar em casa, o pai teria reagido com irritação ao ver o desenho no caderno da filha. Segundo relatos, ele afirmou que a escola estava “tentando influenciar a criança” e que a professora estaria “forçando conteúdos religiosos contrários à fé da família”. Em meio à discussão, o homem chamou a Polícia Militar e se deslocou até a unidade escolar, onde questionou funcionários e exigiu explicações da equipe pedagógica.
A PM compareceu ao local, ouviu a direção e explicou que não havia qualquer crime em andamento. Os policiais esclareceram que o ensino de cultura afro-brasileira é previsto pela legislação brasileira — especialmente pela Lei 10.639/03, que torna obrigatório o estudo da história e da cultura africana e afro-brasileira em todas as escolas. O pai foi orientado a registrar um boletim de ocorrência caso desejasse formalizar sua reclamação.
Resposta da escola e contexto legal
Em nota enviada aos responsáveis, a direção afirmou que a atividade fazia parte do planejamento escolar anual, alinhado às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Segundo a gestão, o conteúdo não tinha caráter religioso, mas sim histórico, cultural e artístico.
A escola reforçou ainda que o papel da educação é apresentar às crianças diferentes expressões culturais brasileiras, incentivando respeito, tolerância e reconhecimento da diversidade que forma a identidade do país.
Especialistas em educação e cultura afro-brasileira ressaltam que o ensino sobre orixás na escola não implica prática religiosa, assim como o ensino sobre Zeus, Iemanjá, Curupira, Tupã ou Thor não representa culto às respectivas tradições. Trata-se de conhecimento cultural, histórico e antropológico.
Repercussão e preocupações de educadores
O caso rapidamente viralizou nas redes, gerando debates acalorados. Muitos internautas criticaram a atitude do pai e destacaram que episódios como esse revelam o quanto o Brasil ainda enfrenta desafios relacionados à intolerância religiosa, especialmente contra religiões de matriz africana, frequentemente alvo de preconceito.
Professores relataram que situações semelhantes têm se tornado mais frequentes, trazendo medo, estresse e autocensura para profissionais da educação. Docentes afirmam que há crescente pressão de grupos religiosos e políticos para restringir conteúdos culturais previstos em lei, o que dificulta o trabalho pedagógico e prejudica o desenvolvimento de uma educação plural.
Representantes de coletivos antirracistas e de defesa da liberdade religiosa se manifestaram publicamente, classificando o episódio como “um triste retrato do racismo estrutural e da falta de compreensão sobre a importância da cultura afro-brasileira”.
Impacto na comunidade escolar
Pais de outros estudantes defenderam a escola e elogiaram a condução da atividade, afirmando que a professora trabalhou o tema de forma educativa e sensível. Para eles, a presença de símbolos da cultura afro-brasileira nas escolas é essencial para combater preconceitos que ainda persistem na sociedade.
A Secretaria de Educação deve analisar o caso e oferecer apoio à escola, à equipe pedagógica e, se necessário, à família envolvida. O órgão também poderá reforçar orientações sobre a legislação que trata do ensino da história e cultura afro-brasileira, garantindo que unidades escolares sigam amparadas diante de conflitos semelhantes.
Um debate que vai além da sala de aula
O episódio evidencia, mais uma vez, a necessidade de discutir educação, diversidade cultural, respeito religioso e direitos constitucionais. Ele também levanta questionamentos sobre o quanto professores estão vulneráveis a ataques decorrentes de incompreensões ou preconceitos pessoais.
Enquanto o caso segue repercutindo, especialistas defendem a importância de fortalecer políticas de educação antirracista, construir diálogos com as famílias e promover ambientes escolares mais seguros, informados e acolhedores para todas as crianças, independentemente da crença, origem ou cultura de cada uma.
O incidente, ainda em apuração administrativa, já se tornou um símbolo de um debate maior que o país precisará enfrentar com maturidade: o direito de aprender sobre a pluralidade do Brasil e a responsabilidade coletiva de combater todas as formas de intolerância.