O Pelourinho, localizado no Centro Histórico de Salvador, é um dos símbolos mais marcantes da identidade brasileira. Suas ladeiras de pedra, casarões coloniais coloridos e igrejas centenárias contam silenciosamente uma história que atravessa mais de quatro séculos, da violência da escravidão ao florescimento da cultura afro-brasileira que hoje encanta o mundo.
Origens: quando Salvador era a capital do Brasil
Fundada em 1549, Salvador foi a primeira capital do Brasil e um dos mais importantes portos do Atlântico Sul. Era ali, no coração da cidade, que o Pelourinho, originalmente uma coluna de pedra usada para punições públicas, foi erguido. O local servia como ponto de castigo para pessoas escravizadas e também para criminosos, seguindo as práticas coloniais portuguesas.
Com o passar dos anos, o nome “Pelourinho” deixou de se referir apenas ao instrumento de punição e passou a designar todo o conjunto urbano ao redor, que se consolidou como centro administrativo, religioso e econômico da colônia.
Séculos XVII e XVIII: auge econômico e religiosa
Durante os ciclos de açúcar e ouro, Salvador prosperou. O Pelourinho se transformou em um polo de riqueza, reunindo:
• Sedes administrativas e tribunais,
• Casas de famílias influentes,
• Ordens religiosas poderosas, como a Igreja e Convento de São Francisco, famosa por seu interior de ouro.
A arquitetura barroca se espalhou pelas ruas, deixando marcas que, até hoje, fazem da região uma das mais belas paisagens urbanas do país.
A escravidão e a resistência
O Pelourinho também carrega a marca profunda da escravidão africana. Ali, milhares de pessoas escravizadas eram negociadas, castigadas e vigiadas. Mas foi naquele mesmo território que surgiram inúmeras formas de resistência e expressão cultural africana raízes daquilo que daria origem à identidade baiana.
É desse encontro de dor e resistência que nascem manifestações que hoje são patrimônio brasileiro, como:
• a capoeira,
• o samba de roda,
• os rituais do candomblé,
• e tradições musicais que influenciariam o mundo.
Décadas de 1900: abandono e deterioração
Com a transferência da capital para o Rio de Janeiro e a mudança da dinâmica econômica da cidade, o Pelourinho entrou em decadência ao longo do século XX. A região sofreu com:
• prédios em ruínas,
• falta de manutenção pública,
• violência e pobreza.
Por décadas, o bairro ficou estigmatizado, apesar de seu valor histórico.
Patrimônio da Humanidade e renascimento cultural
A virada começou nos anos 1980 e se intensificou nos anos 1990, quando o Pelourinho passou por uma grande restauração. Em 1985, o Centro Histórico de Salvador foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, impulsionando investimentos e revitalizações.
A partir daí, o Pelourinho renasceu como um referência mundial de cultura afro-brasileira, atraindo visitantes de todo o planeta e fortalecendo tradições como:
• os blocos afro (Olodum, Ilê Aiyê),
• os atabaques e tambores que ecoam nas ruas,
• os museus e centros culturais,
• os ateliês de artistas baianos.
Bandas como o Olodum ganharam projeção global, chegando a gravar com Michael Jackson e Paul Simon colocando o Pelourinho no mapa da música mundial.
Pelourinho hoje: patrimônio, cultura e resistência
Atualmente, o Pelourinho é um dos cartões-postais mais vibrantes do Brasil. Entre turistas, moradores, artistas de rua e ritmos que ocupam becos e largos, o bairro mantém viva sua essência: um espaço de memória, luta e celebração da identidade negra, com forte presença cultural, religiosa e musical.
Apesar dos desafios, como desigualdade social e necessidade constante de preservação, o Pelourinho segue sendo um símbolo maior do que suas construções: é um território de ancestralidade, reencontro e afirmação.
Conclusão
A história do Pelourinho é a história do Brasil: marcada por contrastes entre violência e alegria, exploração e resistência, opressão e cultura. Hoje, o bairro se ergue não como um monumento estático, mas como uma força viva, onde passado e presente se cruzam diariamente nas cores, nos sons e nas tradições que o transformam em um dos lugares mais especiais do mundo.