As baianas de acarajé são um dos maiores símbolos culturais da Bahia e do Brasil. Com suas saias rodadas, turbantes, colares e sorriso acolhedor, elas carregam muito mais do que um ofício culinário: representam uma herança africana ancestral, um patrimônio religioso e um marco de resistência feminina negra que atravessou séculos.
Origens no continente africano
O acarajé nasceu no Golfo do Benim, região onde hoje estão Nigéria e Benim, entre os povos iorubás. Chamado de akara, era um bolinho de feijão-fradinho frito em óleo de dendê, preparado tanto como alimento cotidiano quanto em cerimônias religiosas.
O termo “acarajé” vem da expressão iorubá akará je, que significa “comer bolinho de fogo”, em referência ao dendê quente e marcante, símbolo de energia vital.
Chegada ao Brasil e reinvenção na Bahia
Trazido pelas mulheres negras escravizadas durante o período colonial, o acarajé se tornou uma forma de sustento e liberdade. Muitas mulheres “de ganho” escravizadas que podiam vender alimentos nas ruas, usavam a venda do bolinho para comprar sua alforria ou ajudar na manutenção de seus filhos.
As ruas de Salvador se tornaram o palco onde essas mulheres transformaram culinária em independência econômica e identidade cultural.
Ligação profunda com o candomblé
O acarajé não é apenas comida: é um alimento sagrado.
Ele faz parte das oferendas para Iansã e Xangô, dois dos orixás mais reverenciados no candomblé. Suas receitas e preparos seguem rituais transmitidos de geração em geração, com precisão e respeito.
A baiana de acarajé, portanto, não é apenas uma vendedora, muitas vezes ela é iniciada no candomblé, guardiã de saberes religiosos, tradição e ancestralidade.
Da rua ao patrimônio: o reconhecimento oficial
Com o passar dos séculos, as baianas de acarajé se tornaram figuras indispensáveis da paisagem baiana. Em 2004, o ofício foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN, fortalecendo a preservação das técnicas, vestimentas, receitas e saberes.
Esse reconhecimento protege as baianas contra descaracterizações comerciais e garante a valorização de seu papel social e histórico.
Identidade, resistência e protagonismo feminino
As baianas de acarajé representam:
• Empreendedorismo feminino
• Preservação cultural afro-brasileira
• Resistência negra ao longo dos séculos
• Ligação entre religião, culinária e tradição oral
Elas sustentam famílias, movimentam o turismo e mantêm vivo um legado que nasceu na África e floresceu na Bahia.
A baiana contemporânea
Hoje, as baianas continuam ocupando ruas, praças e festas populares, como a Lavagem do Bonfim e o Carnaval. Mantêm o preparo tradicional do acarajé, feijão-fradinho descascado à mão, massa batida com colher de pau, fritura no dendê puro, e seguem como ícones culturais, espirituais e turísticos.
Mesmo diante da modernização, disputas comerciais e desafios econômicos, permanecem símbolos de autenticidade e força.
Um patrimônio vivo da Bahia
Mais do que um alimento, o acarajé é história servida em bandeja. E as baianas, com sua presença imponente, preservam um dos maiores tesouros afro-brasileiros.
Elas são memória, resistência e celebração, guardiãs de um legado que molda a alma da Bahia e encanta o mundo.