Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, muita gente finge surpresa, faz um post genérico, posta um “meu Deus, onde vamos parar?” e, em dois dias, a vida segue normalmente. Mas quando uma mulher levanta a voz, exige direitos, expõe desigualdades ou questiona privilégios, aí sim nasce uma comoção real, não para apoiar, mas para silenciar. E isso revela algo profundo e incômodo: para parte da sociedade, a morte de mulheres é menos perturbadora do que sua liberdade.
- Feminicídio não ameaça estruturas, o feminismo sim
A violência extrema contra mulheres acontece dentro da lógica do machismo. Não desafia a ordem; ela faz parte dela. Muitos preferem acreditar que é “caso isolado” ou “monstro”, porque admitir que é estrutural seria reconhecer responsabilidade coletiva.
Já o feminismo é insuportável para quem se beneficia dessa estrutura. Porque ele aponta o dedo para aquilo que muitos fingiram não ver por décadas:
• salários menores,
• carga mental invisível,
• violência cotidiana,
• desigualdade em casa,
• vida controlada, podada ou monitorada.
O feminismo incomoda porque expõe a engrenagem que mantém muita gente confortável.
2. “Feminismo radicaliza”, mas a violência de gênero não?”
É curioso como a sociedade tem mais medo do termo “feminismo” do que das estatísticas. A palavra feminismo desperta resistência, piada, raiva, ironia. Já o feminicídio desperta… passividade.
Por quê?
Porque feminicídio pede empatia. Feminismo pede autocrítica.
E autocrítica dói mais do que a realidade dos números.
Enquanto milhões discutem se “feminismo não é exagero”, mulheres morrem diariamente. E morrer, para muitas, virou rotina. Mas questionar privilégios? Aí vira afronta.
- O silêncio sobre a violência sempre foi conveniente
O feminicídio é o extremo de um ciclo de controle. E controle, para uma sociedade machista, não é um problema, é um hábito. A indignação coletiva só aparece quando o tema vira manchete, e mesmo assim dura pouco.
O feminismo, por outro lado, tira o véu do silêncio.
Ele faz barulho.
Ele muda comportamentos.
Ele redistribui poder.
E poder, quando redistribuído, assusta.
Por isso tanta gente prefere atacar o feminismo do que enfrentar a realidade brutal: não é o movimento que ameaça a ordem. É a ordem que ameaça as mulheres.
- A verdade incômoda
O feminismo incomoda porque mulheres vivas, livres e conscientes incomodam mais do que mulheres mortas.
Mulheres mortas não falam, não reinvindicam, não denunciam.
Mulheres vivas, sim.
E enquanto parte da sociedade continuar mais irritada com mulheres lutando por direitos do que com homens tirando suas vidas, teremos a prova de que o problema nunca foi o feminismo, foi sempre o machismo.