Acorda, Brasil: do campo francês em revolta ao silêncio imposto ao cacau brasileiro
Nas últimas semanas, produtores rurais da França e de outros países da União Europeia tomaram ruas, rodovias e centros políticos para defender algo elementar: direito à sobrevivência econômica, coerência ambiental e soberania produtiva. Tratores em Paris, bloqueios estratégicos e pressão direta sobre governos deixaram claro que o campo europeu se recusa a pagar sozinho a conta da globalização e da transição ecológica.
Os agricultores franceses não rejeitam a sustentabilidade. Rejeitam a hipocrisia de um sistema que impõe regras ambientais rígidas aos produtores locais, enquanto permite a entrada de produtos estrangeiros feitos sob custos menores, menos exigências e com impactos ambientais muitas vezes superiores. Para eles, sustentabilidade sem renda é exclusão. E exclusão não é política ambiental — é abandono.
Esse movimento lança luz sobre uma realidade ainda mais silenciosa no Brasil, especialmente no setor cacaueiro.
O cacau brasileiro, em particular o cultivado no sistema cabruca, representa um dos maiores patrimônios socioambientais do país. Ele mantém a Mata Atlântica em pé, preserva biodiversidade, protege recursos hídricos, sequestra carbono e sustenta milhares de famílias no campo. Poucas cadeias produtivas no mundo conseguem alinhar produção agrícola, conservação ambiental e estabilidade social como o cacau do sul da Bahia.
Ainda assim, esse valor é sistematicamente ignorado.
Enquanto produtores franceses enfrentam governos para defender renda e território, o cacauicultor brasileiro convive há décadas com uma relação profundamente assimétrica com grandes tradings globais, como Barry Callebaut e Cargill. Empresas que concentram compra, logística, classificação, formação de preço e acesso ao mercado internacional. Empresas que constroem narrativas globais de “cacau sustentável”, estampam relatórios ESG e campanhas institucionais, mas não repassam ao produtor o valor real da sustentabilidade que ele pratica.
Na prática, o produtor brasileiro presta um serviço ambiental global gratuito. Preserva floresta, mantém carbono estocado, protege água e território — e recebe como se produzisse uma commodity indiferenciada. O resultado é um modelo perverso: o valor simbólico fica com as multinacionais; o risco, o custo e a fragilidade ficam com quem planta.
Essa contradição é exatamente o ponto que a Rede Sustentabilidade de Itacaré vem indicando como central e inadiável. A Rede defende que o debate sobre cacau não pode mais se limitar à produtividade ou ao volume exportado. É preciso discutir remuneração justa pelos serviços ambientais do cacau de cabruca, diferenciação de preço para sistemas que preservam floresta, rastreabilidade com justiça econômica — e não como ferramenta de exclusão — e equilíbrio real na relação entre produtores e grandes compradores globais.
Assim como fizeram os agricultores franceses, o setor cacaueiro brasileiro precisa compreender que mobilização gera negociação e que sustentabilidade sem justiça econômica é apenas marketing corporativo. Não existe transição ecológica justa sem o produtor no centro da equação. Não existe cacau sustentável quando quem sustenta o sistema vive pressionado por preços baixos e contratos opacos.
O exemplo europeu é claro: quando o campo se organiza, a política escuta. Quando o campo se cala, o mercado impõe.
O cacau brasileiro não é apenas chocolate.
É floresta viva.
É gente no território.
É biodiversidade, clima e cultura.
Reconhecer isso não é ideologia — é estratégia econômica, ambiental e social.
E o debate precisa sair do discurso e entrar na agenda política agora.
Acorda, Brasil.
O silêncio do campo custa caro — e alguém sempre lucra com ele.