A China atingiu, em março, um novo recorde ao importar 1,6 milhão de barris por dia (bpd) de petróleo do Brasil, consolidando-se como principal destino da commodity brasileira em meio a mudanças no cenário energético global. O volume representa 67% de todas as exportações brasileiras no período e supera o recorde anterior, de cerca de 1,46 milhão de bpd, registrado em maio de 2020.
O avanço ocorre em um contexto de reorganização dos fluxos internacionais de energia, fortemente impactados pelas tensões no Oriente Médio, especialmente após interrupções no tráfego pelo Estreito de Ormuz — rota responsável por cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente.
Segundo Bruno Cordeiro, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, o movimento já era esperado. “O fechamento do Estreito de Ormuz levou importadores a buscar alternativas, e o Brasil se destacou como fornecedor capaz de suprir parte dessa demanda”, afirmou.
Ásia amplia protagonismo e diversifica fornecedores
A forte demanda asiática não se restringiu à China. A Índia apareceu como o segundo maior destino do petróleo brasileiro em março, respondendo por 7% das exportações. O país também tem buscado diversificar suas fontes de abastecimento diante das dificuldades logísticas na região do Golfo.
Na sequência, aparecem Espanha (6,7%) e Estados Unidos (6,1%) como importantes compradores do petróleo brasileiro.
Ao todo, as exportações do Brasil atingiram 2,5 milhões de bpd em março, alta de 12,4% em relação a fevereiro — o segundo maior volume da série histórica, atrás apenas de março de 2023.
Esse cenário reforça o papel estratégico do Brasil como fornecedor global em momentos de instabilidade, especialmente para mercados asiáticos que buscam reduzir dependência do Oriente Médio.
Trégua pode aliviar pressão — mas incertezas persistem
Com o anúncio de uma trégua no conflito envolvendo o Irã, há expectativa de reabertura gradual do Estreito de Ormuz, o que pode aliviar a pressão sobre os importadores asiáticos e reduzir a procura emergencial por petróleo brasileiro.
Ainda assim, Cordeiro pondera que a normalização não será imediata. “Mesmo com a retomada dos fluxos, o Brasil deve continuar com volumes elevados de exportação, especialmente para China e Índia”, explicou.
Especialistas apontam que a instabilidade geopolítica segue sendo um fator determinante para o mercado. Qualquer novo bloqueio na região pode provocar nova corrida por fornecedores alternativos.
Importação de diesel cai e acende alerta
Enquanto o petróleo ganha protagonismo nas exportações, o Brasil registrou uma forte queda nas importações de diesel. Em março, o país comprou 1,05 bilhão de litros do combustível, uma redução de 25% em relação a fevereiro.
O dado chama atenção porque o Brasil depende de importações para cerca de 25% do consumo interno de diesel.
A queda foi puxada principalmente pela redução das compras dos Estados Unidos, cuja participação despencou de 8,3% para menos de 1% em apenas um mês. Segundo Cordeiro, isso reflete um redirecionamento das cargas norte-americanas para mercados mais lucrativos, especialmente na Ásia.
Rússia amplia presença no Brasil
Em contrapartida, a Rússia aumentou sua participação no mercado brasileiro de diesel, passando de 58% em fevereiro para 75% em março, mesmo mantendo volumes semelhantes de exportação.
O movimento ocorre apesar de ataques recentes da Ucrânia a portos estratégicos russos, que impactaram temporariamente a capacidade de exportação. A expectativa é que esses efeitos sejam sentidos de forma mais clara apenas nos embarques programados para abril.
Já Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos mantiveram participação estável, com cerca de 130 milhões de litros cada exportados ao Brasil no mês.
Cenário global segue volátil
Para os próximos meses, o mercado de energia deve continuar operando sob forte incerteza. Um cessar-fogo temporário entre Estados Unidos e Irã pode aliviar a disputa por cargas no curto prazo, permitindo maior fluxo de petróleo e derivados do Golfo Pérsico para o restante do mundo.
No entanto, a ausência de uma solução definitiva para o conflito mantém o risco de novos bloqueios no Estreito de Ormuz — o que pode voltar a pressionar preços e reorganizar, mais uma vez, os fluxos globais de energia.
Brasil ganha relevância estratégica
Diante desse cenário, o Brasil se consolida como um player cada vez mais relevante no mercado global de petróleo. A combinação de alta produção, estabilidade relativa e capacidade de exportação coloca o país em posição privilegiada para atender à demanda internacional em momentos de crise.
Se por um lado isso representa uma oportunidade econômica significativa, por outro reforça a necessidade de atenção à dependência externa de derivados, como o diesel — um ponto sensível para a segurança energética nacional.