Um surto de hantavírus registrado a bordo de um navio de cruzeiro no Oceano Atlântico colocou autoridades sanitárias internacionais em estado de alerta e reacendeu preocupações sobre doenças respiratórias de alta letalidade. A embarcação, operada pela empresa Oceanwide Expeditions, partiu de Ushuaia, na Argentina, no mês passado, em uma expedição por regiões remotas do Atlântico Sul, quando passageiros começaram a apresentar sintomas graves da infecção.
De acordo com informações divulgadas pela empresa, ao menos sete pessoas morreram após desenvolverem complicações causadas pelo vírus. O episódio gerou repercussão mundial e levou especialistas a analisarem as circunstâncias que favoreceram a disseminação da doença dentro do navio.
Em entrevista à CNN nesta segunda-feira (11), o infectologista Alberto Chebabo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explicou que o vírus identificado no surto não apresenta mutações inéditas que indiquem maior capacidade de transmissão.
Segundo o especialista, trata-se de uma variante já conhecida pela comunidade científica: a cepa Andes, considerada uma exceção entre os hantavírus por sua capacidade de transmissão direta entre humanos.
Entenda o hantavírus
Existem atualmente 38 espécies conhecidas de hantavírus no mundo. Na maioria dos casos, a transmissão acontece pelo contato com fezes, urina ou saliva de roedores silvestres contaminados.
A cepa Andes, no entanto, possui uma característica incomum: pode ser transmitida de pessoa para pessoa por via respiratória, sem necessidade de contato com o animal transmissor.
Apesar disso, a transmissão exige condições específicas.
Diferentemente de vírus altamente contagiosos, como o da Covid-19, o hantavírus da cepa Andes necessita de contato próximo e prolongado entre pessoas, especialmente em ambientes fechados, com pouca circulação de ar.
Ambiente confinado favoreceu disseminação
Para especialistas, o ambiente do navio criou as condições ideais para o avanço da doença.
A suspeita é de que um passageiro tenha embarcado ainda no período de incubação — fase em que a pessoa já está infectada, mas ainda não apresenta sintomas.
A combinação de fatores como climatização constante, baixa renovação do ar e o frio intenso da região fez com que passageiros permanecessem por longos períodos em áreas internas da embarcação.
Esse cenário teria facilitado a transmissão respiratória entre os ocupantes.
Alta letalidade preocupa especialistas
A hantavirose é considerada uma doença grave, com taxa de letalidade que varia entre 25% e 50%, dependendo da rapidez no diagnóstico e no suporte médico oferecido.
Mesmo diante da gravidade do surto, especialistas reforçam que não há motivo para pânico generalizado.
Segundo Chebabo, o risco para a população em geral permanece baixo, já que o vírus não apresenta comportamento semelhante ao de pandemias recentes.
O caso, porém, serve como alerta para protocolos sanitários em ambientes confinados, especialmente em viagens de longa duração.