Criado com a ambição de transformar a filantropia global, o Giving Pledge — compromisso que incentiva bilionários a doar ao menos metade de suas fortunas — vive hoje um momento de desaceleração e questionamentos. Lançada em 2010 por Warren Buffett em parceria com Bill Gates e Melinda French Gates, a iniciativa já foi símbolo de prestígio e responsabilidade social entre os ultrarricos. Agora, enfrenta críticas, abandono de membros e perda de relevância.
O surgimento de uma “nova norma”
O projeto nasceu em meio a um período de otimismo econômico e valorização da filantropia. Em 2010, Buffett descreveu a proposta como algo revolucionário:
“Estamos falando de trilhões ao longo do tempo. A ideia é estabelecer uma nova norma.”
A iniciativa rapidamente ganhou adesão. Em poucos meses, dezenas de famílias bilionárias se comprometeram com a causa, e o movimento chegou até a Casa Branca, sendo apresentado ao então presidente Barack Obama.
Naquele momento, ser um “bilionário do bem” era quase um selo de prestígio. A filantropia era vista como extensão natural do sucesso financeiro, apoiada tanto por democratas quanto por republicanos, especialmente em pautas como educação, saúde global e igualdade de gênero.
Mudança de cenário e críticas crescentes
Quinze anos depois, o contexto é outro. O Giving Pledge passou a ser alvo de críticas, principalmente dentro do próprio grupo de bilionários.
Figuras influentes do setor de tecnologia, como Peter Thiel, têm liderado um movimento silencioso contra a iniciativa. Segundo ele, muitos signatários se arrependem:
“A maioria com quem conversei ao menos expressou arrependimento por ter assinado.”
A crítica central é que a filantropia se tornou mais simbólica do que prática — um instrumento de relações públicas, sem impacto proporcional à riqueza acumulada.
Além disso, o cenário político também mudou. Durante o governo de Donald Trump, a iniciativa perdeu espaço e prestígio institucional, sendo tratada com desdém por integrantes da administração.
Uma nova mentalidade entre bilionários
A visão dominante entre parte dos novos bilionários é diferente da que prevalecia em 2010. Hoje, muitos defendem que o impacto social deve vir diretamente dos negócios, não da filantropia tradicional.
O empresário Elon Musk, por exemplo, já afirmou que seus próprios empreendimentos “são filantropia”, ao gerar inovação, empregos e crescimento econômico.
Essa mudança reflete uma fase mais agressiva do capitalismo, com maior alinhamento político e menor preocupação com a imagem pública associada à doação.
Crises de imagem e perda de influência
Outro fator que contribuiu para o enfraquecimento do Giving Pledge foi o desgaste de seus principais líderes. Bill Gates teve sua imagem impactada após associações com Jeffrey Epstein, o que também levou ao fim de seu casamento com Melinda em 2021.
A própria Fundação Bill e Melinda Gates perdeu influência política nos últimos anos, especialmente em temas como saúde global, que passaram a ser alvo de críticas.
Desaceleração nas adesões
Apesar de ainda contar com mais de 250 famílias, incluindo nomes como Michael Bloomberg, Sam Altman e MacKenzie Scott, o ritmo de novas adesões caiu drasticamente:
- Primeiros 5 anos: 113 signatários
- 5 anos seguintes: 72
- Últimos 5 anos: apenas 43
Em 2024, apenas quatro novos participantes aderiram.
Segundo especialistas, a polarização política e a desconfiança generalizada reduziram o apelo do compromisso. Hoje, grandes doações podem gerar mais críticas do que reconhecimento público.
Falta de fiscalização e críticas à efetividade
Outro ponto sensível é a ausência de mecanismos de controle. O Giving Pledge é, essencialmente, um compromisso moral — não há fiscalização sobre quando ou como o dinheiro será doado.
Críticos apontam que muitos bilionários destinam recursos a suas próprias fundações ou deixam as doações para depois da morte, o que tecnicamente cumpre o acordo, mas reduz o impacto imediato.
Casos de abandono e resistência
Nos últimos anos, surgiram sinais concretos de desgaste. O empresário Brian Armstrong, cofundador da Coinbase, abandonou o compromisso em 2024, sem explicar publicamente os motivos.
Outros nomes influentes, como Scott Bessent, atual secretário do Tesouro, também criticaram a iniciativa, classificando-a como “bem-intencionada, mas vaga”.
Ainda há defensores
Apesar das críticas, o Giving Pledge continua contando com apoiadores. Bilionários como John Arnold destacam que o problema não é a iniciativa em si, mas o momento difícil enfrentado pelo setor filantrópico como um todo.
Já Dario Amodei, do setor de inteligência artificial, lamentou o crescimento de uma visão “cínica” sobre a filantropia — embora ele próprio ainda não tenha aderido ao compromisso.
Um símbolo de outra época
Para especialistas, o Giving Pledge se tornou uma espécie de “cápsula do tempo” de uma era em que grandes fortunas buscavam legitimação social por meio da doação.
Hoje, essa lógica parece enfraquecida.
Mesmo assim, a liderança atual da iniciativa afirma que o objetivo permanece: transformar a doação em norma entre os ultrarricos — ainda que o caminho seja mais desafiador do que se imaginava.