Durante anos, parte do setor acostumou-se a repetir um discurso de dependência estrutural que, na prática, ajudou a naturalizar importações, deságios e a fragilidade comercial do produtor brasileiro.
Mas existe uma verdade objetiva que precisa ser dita com clareza:
O Brasil é autossuficiente em cacau.
A produção brasileira de cacau gira entre 220 mil e 250 mil toneladas por ano, enquanto a moagem da indústria nacional ficou em cerca de 196 mil toneladas em 2025. Bahia, Pará e Espírito Santo concentram praticamente toda essa oferta, demonstrando que o Brasil possui capacidade real de abastecer sua própria indústria sem depender estruturalmente de importações.
Todo o resto é consequência política, econômica e institucional dessa escolha de modelo.
Se o país produz cacau suficiente para abastecer grande parte de sua indústria, por que o produtor continua sofrendo descontos severos em relação ao mercado internacional?
Por que seguimos convivendo com mecanismos que pressionam o preço interno?
Por que a importação virou elemento recorrente mesmo em momentos de recuperação produtiva nacional?
Essas perguntas precisam deixar os bastidores e entrar definitivamente no debate público.
O produtor brasileiro precisa compreender que não existe transformação econômica sem consciência coletiva.
A cadeia produtiva do cacau sempre foi extremamente organizada do lado industrial e financeiro. O mesmo ainda não ocorreu, de forma proporcional, do lado da produção.
E talvez esteja aí uma das principais raízes do problema.
O tripé do poder cidadão
Nenhum setor econômico relevante se fortalece apenas reclamando em grupos de WhatsApp ou aguardando soluções espontâneas.
Existe um tripé clássico de pressão democrática e institucional:
- Espaço na imprensa livre
A informação precisa circular.
A sociedade precisa entender o que acontece dentro da cadeia do cacau.
Consumidor, imprensa, parlamento e governo precisam compreender:
o impacto do deságio;
os efeitos das importações;
a concentração econômica do setor;
os reflexos sociais na renda do produtor. - Pressão permanente junto ao governo
Independentemente de ideologia ou partido.
O cacau precisa voltar a ser tratado como tema estratégico:
econômico;
ambiental;
social;
cambial;
geopolítico.
O Brasil preserva florestas através do cacau cabruca, gera empregos e movimenta economias regionais inteiras.
O mínimo esperado é coerência na política setorial e instrumentos jurídicos coletivos.
Chegou a hora de discutir medidas coletivas de forma madura e técnica.
O debate sobre:
drawback;
concentração de mercado;
formação de preços;
assimetria comercial;
possíveis distorções concorrenciais;
não pode ser tratado apenas como conversa informal de corredor.
O produtor rural brasileiro também possui instrumentos legais e constitucionais de defesa econômica.
A classe precisa se conscientizar
Quando alguns produtores levantam questionamentos mais firmes, frequentemente são tratados como “radicais”, “inconvenientes” ou “fora do alinhamento”.
Mas a história mostra que setores econômicos só avançam quando parte de seus integrantes decide romper o conforto do silêncio.
O debate precisa amadurecer.
Não se trata de atacar empresas ou criar conflitos artificiais.
Trata-se de defender equilíbrio, transparência e sustentabilidade econômica para quem produz.
Sem produtor forte:
não existe sustentabilidade;
não existe ESG;
não existe floresta preservada;
não existe futuro para a cadeia do cacau brasileiro.
O cacau brasileiro precisa voltar a acreditar em si mesmo
O Brasil já foi referência mundial no setor.
Tem tecnologia.
Tem solo.
Tem clima.
Tem tradição.
Tem mercado consumidor crescente.
Tem capacidade de agregar valor.
Talvez o primeiro passo seja psicológico: o produtor brasileiro precisa voltar a acreditar na própria força coletiva.
Porque o Brasil é autossuficiente em cacau.
E todo o resto é consequência.