Durante décadas, nós produtores discutimos nossos problemas entre nós mesmos: preço internacional, doenças, produtividade, custo de produção.
Tudo isso é importante. Mas existe um ponto que quase nunca foi enfrentado de forma estratégica no Brasil:o consumidor final de chocolate.Hoje, quem realmente determina o rumo do mercado é quem está na prateleira do supermercado escolhendo qual chocolate levar para casa.
E precisamos dizer algo com franqueza:muito do que está sendo vendido como chocolate hoje não honra o cacau.Grande parte dos produtos nas prateleiras tem baixíssimo teor de cacau, excesso de açúcar, gorduras substitutas e aromatizantes. Em muitos casos, o cacau — que deveria ser a alma do chocolate — vira apenas um detalhe.Falando de forma direta:muita porcaria está sendo vendida como se fosse chocolate.E o consumidor, que nunca foi educado para entender a diferença, compra pelo preço. Quando isso acontece, quem paga a conta somos nós, produtores.
Se o mercado aceita produtos cada vez mais baratos e com cada vez menos cacau, o valor da nossa matéria-prima naturalmente é pressionado para baixo.Por isso precisamos entender uma coisa fundamental:a batalha pelo valor do cacau também se ganha na mente do consumidor.O consumidor precisa aprender algo muito simples:Chocolate de verdade tem cacau.
Se ele passar a olhar o percentual de cacau na embalagem, se entender que qualidade vem do fruto, se perceber que existe agricultura, floresta e produtor por trás daquele produto, o mercado muda.Hoje o Brasil produz cacau em diversos estados — Bahia, Pará, Espírito Santo, Rondônia, Amazonas, Acre, Mato Grosso, Maranhão, São Paulo e Minas Gerais, além de outros polos menores em crescimento.Isso significa que o cacau já é uma cultura verdadeiramente nacional.
São milhares de produtores espalhados pelo país — da Amazônia à Mata Atlântica — sustentando uma cadeia produtiva inteira.Mas enquanto o consumidor não souber diferenciar chocolate de verdade de produtos cheios de substituição, continuaremos competindo com coisas que muitas vezes nem deveriam ser chamadas de chocolate.
Por isso precisamos de algo que o Brasil nunca fez de forma organizada:uma campanha nacional de valorização do cacau brasileiro.Uma campanha simples, direta e educativa, que ensine o consumidor a procurar chocolate com mais cacau e a valorizar a origem do produto.
Uma campanha que diga claramente:Chocolate de verdade tem cacau.Valorize quem produz o fruto.
Valorize o cacau do Brasil.Se não fizermos isso, continuaremos vendo o mercado ser ocupado por produtos cada vez mais baratos e cada vez mais distantes do cacau.Mas se fizermos, podemos transformar a percepção do consumidor — e com isso criar valor real para o cacau brasileiro.No fim das contas, não se trata apenas de vender chocolate.
Trata-se de defender o valor do nosso produto, o futuro da nossa atividade e o reconhecimento de quem produz um dos frutos mais nobres da agricultura brasileira.
Porque o consumidor precisa entender uma coisa simples:sem cacau, não existe chocolate.E sem produtor, não existe cacau.