O Reino Unido oficializou uma das medidas mais rígidas do mundo no combate ao tabagismo. A chamada Lei do Tabaco e Vapes recebeu sanção real e torna ilegal, de forma permanente, a venda de cigarros e outros produtos derivados do tabaco para qualquer pessoa nascida a partir de 1º de janeiro de 2009.
Na prática, a regra cria uma “geração livre do fumo”. Isso significa que, mesmo quando essas pessoas atingirem a maioridade, jamais poderão comprar cigarros legalmente no país.
A medida foi classificada pelo ministro da Saúde britânico, Wes Streeting, como “o avanço mais significativo de saúde pública em décadas”.
“As crianças do Reino Unido farão parte da primeira geração livre do tabaco, protegidas de uma vida inteira de dependência e danos”, afirmou o ministro após a aprovação definitiva da legislação.
Como a regra vai funcionar
Ao contrário de uma proibição imediata para todos, o Reino Unido adotou um modelo progressivo.
A partir de 1º de janeiro de 2027, a idade mínima para compra de cigarros será elevada em um ano, todos os anos.
Na prática:
- quem nasceu até 31 de dezembro de 2008 continuará podendo comprar cigarro legalmente;
- quem nasceu a partir de 1º de janeiro de 2009 nunca terá autorização legal para adquirir produtos derivados do tabaco.
A legislação inclui:
- cigarros tradicionais;
- tabaco para enrolar;
- charutos;
- cigarros eletrônicos com tabaco aquecido;
- papel para cigarro;
- produtos herbais para fumar.
Vapes entram na mira
Embora a proibição vitalícia seja voltada ao tabaco, a nova lei endurece significativamente as regras para os cigarros eletrônicos.
O governo britânico ganhou poder para:
- restringir sabores considerados atrativos para jovens;
- padronizar embalagens;
- limitar publicidade e promoções;
- proibir distribuição gratuita;
- vetar vendas em máquinas automáticas;
- ampliar áreas onde o uso será proibido.
As restrições poderão alcançar espaços ao ar livre, como:
- parquinhos;
- entradas de escolas;
- áreas próximas a hospitais;
- ambientes públicos frequentados por crianças.
O Reino Unido já havia proibido, em 2025, a comercialização de vapes descartáveis, produtos que se popularizaram entre adolescentes pelo preço acessível e pelo design chamativo.
Pressão sobre o sistema de saúde
O endurecimento da legislação faz parte da estratégia britânica para reduzir doenças evitáveis e aliviar a pressão sobre o National Health Service (NHS).
Segundo dados oficiais, o tabagismo está ligado a cerca de 64 mil a 75 mil mortes por ano no Reino Unido e gera bilhões de libras em custos ao sistema público de saúde.
Especialistas da área classificaram a decisão como um marco histórico.
Hazel Cheeseman, da organização Action on Smoking and Health, afirmou que a medida representa um “ponto de inflexão decisivo” para a saúde pública britânica.
Reino Unido segue tendência global
A ideia de impedir novas gerações de terem acesso legal ao tabaco não surgiu no Reino Unido.
A Nova Zelândia foi pioneira ao adotar regra semelhante em 2022, proibindo a venda para nascidos após 2008.
A legislação, porém, foi revogada em 2023 após mudança de governo.
Agora, com a entrada em vigor da lei britânica, o Reino Unido se torna o principal laboratório mundial desse modelo de combate ao tabagismo — e pode influenciar outros países a adotar políticas semelhantes.
Debate sobre liberdade individual
Apesar do amplo apoio parlamentar e popular, a nova legislação também gerou críticas.
O principal argumento contrário aponta que a medida cria uma divisão inédita entre adultos da mesma idade, já que, no futuro, pessoas com poucos meses de diferença de nascimento terão direitos diferentes para comprar tabaco.
Ainda assim, pesquisas no país indicam maioria favorável à medida, especialmente pelo impacto esperado na prevenção da dependência química entre jovens.