Entrevista Premium com Henrique Almeida
Cleber Isaac :
Coordenador de Comunicação do SOS Cacau / Diretor Site Cacau & Chocolate
A cacauicultura brasileira atravessa um momento decisivo. Pressionados por custos crescentes, preços voláteis e um mercado cada vez mais concentrado, produtores de cacau questionam a coerência entre o discurso de sustentabilidade adotado pela indústria moageira e a realidade vivida no campo.Para aprofundar esse debate, o Cacau & Chocolate ouviu Henrique Almeida, que faz uma análise direta e sem rodeios sobre importações, concentração de mercado, sustentabilidade ambiental e o risco real de esvaziamento da produção nacional.A entrevista expõe uma contradição central da cadeia do cacau no Brasil: enquanto o produtor assume o ônus ambiental, social e territorial, a indústria concentra poder de compra, define preços e preserva margens.Importar cacau: necessidade real ou ferramenta de pressão?Henrique Almeida reconhece um dado objetivo: o Brasil não é autossuficiente em cacau. A produção nacional, hoje, não supre integralmente o parque industrial instalado.No entanto, ele alerta que essa realidade vem sendo usada como instrumento de pressão sobre o mercado interno.“Ao importar cacau, a indústria reduz a tensão sobre o preço pago ao produtor brasileiro. Isso cria um ambiente em que o custo da ineficiência estrutural da cadeia é transferido para quem produz.”A importação, portanto, não é o problema em si. O problema está na forma como ela é utilizada: sem critérios claros de equilíbrio de mercado, sem limites transparentes e sem contrapartidas ao produtor nacional.Sustentabilidade: valor ambiental sem valor econômicoUm dos pontos mais críticos da entrevista é a desconexão entre o discurso ambiental da indústria e sua prática comercial.“Não é possível falar em sustentabilidade pagando abaixo do custo ao produtor”, afirma Henrique.O produtor brasileiro, especialmente no sistema cabruca, presta serviços ambientais reconhecidos internacionalmente: preserva a Mata Atlântica, mantém biodiversidade, protege recursos hídricos e estoca carbono. Ainda assim, esses ativos não se refletem no preço pago pelo cacau.Para Henrique, sustentabilidade virou argumento de marketing, não um compromisso econômico real com quem sustenta a cadeia.O problema não é produtividade — é o modelo de compraQuestionado sobre eficiência, Henrique rejeita a narrativa de que o produtor brasileiro seria o elo fraco da cadeia.Ele lembra que eficiência não pode ser medida apenas em arrobas por hectare, mas também em valor ambiental, social e territorial.“Se eficiência for preservação ambiental, o produtor brasileiro é extremamente eficiente. Não existe no mundo um modelo como a cabruca.”Mesmo sob limitações naturais, a produção pode atingir patamares relevantes quando há manejo adequado. O entrave, segundo ele, está na concentração do poder de compra, que reduz a capacidade de negociação do produtor.Concentração e distorção de mercadoHenrique é direto ao abordar a estrutura da indústria moageira:“O mercado é oligopolizado. Poucas empresas concentram a moagem e definem o preço.”No Brasil, a compra de cacau está concentrada em poucos agentes. Quem paga à vista impõe condições. O produtor, por sua vez, acaba financiando o abastecimento do mercado interno, aceitando deságios para manter o fluxo de caixa.Essa estrutura gera distorções, reduz renda nas regiões produtoras e compromete a sustentabilidade econômica da atividade.A contradição do cacau irrigadoOutro ponto sensível é o incentivo ao plantio de cacau irrigado em regiões de baixa umidade, como o oeste da Bahia.“Estamos falando de cacau irrigado em áreas com alto consumo de água, enquanto regiões historicamente produtoras têm áreas degradadas prontas para recuperação.”Para Henrique, isso expõe uma incoerência grave: promove-se um modelo intensivo em recursos naturais enquanto se negligencia um sistema tradicionalmente sustentável.Risco real: perder produtoresA consequência desse modelo é clara.“Sem previsibilidade e remuneração justa, ninguém permanece numa cultura de longo prazo como o cacau.”O risco não é apenas econômico, mas territorial. Perder produtores significa perder renda regional, identidade produtiva e soberania agrícola.O caminho: organização e enfrentamento institucionalPara Henrique Almeida, a saída passa, necessariamente, por associativismo e organização coletiva.“Enquanto o produtor agir de forma isolada, o poder continuará concentrado.”Além disso, ele defende o fortalecimento da representação institucional, o enfrentamento técnico da concentração de mercado e a cobrança efetiva de políticas públicas que defendam a produção nacional.ConclusãoA entrevista deixa claro que o debate sobre o cacau no Brasil vai muito além de produtividade ou mercado internacional. Trata-se de modelo econômico, distribuição de valor e equilíbrio de poder.Sem ajustes estruturais, a cadeia corre o risco de se tornar sustentável apenas no discurso — e inviável na prática.✍🏽 Cleber IsaacCoordenação de Comunicação – SOS CacauProdutor rural | Escritor | ConsultorSite Cacau & Chocolate