Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
post

Prof. Durval Libânio Netto Mello fala sobre cadeia do cacau.

Hoje existe na cadeia do cacau e do chocolate no Brasil uma verdadeira engenharia para manipular o preço da amêndoa brasileira em favor da indústria moageira e chocolateira, combinando incentivos tributários (drawback + Mercosul) com mudanças de formulação que reduzem o teor de cacau nos produtos finais. Essa lógica permite manter o cacau nacional em […]

Foto: Freepik

Hoje existe na cadeia do cacau e do chocolate no Brasil uma verdadeira engenharia para manipular o preço da amêndoa brasileira em favor da indústria moageira e chocolateira, combinando incentivos tributários (drawback + Mercosul) com mudanças de formulação que reduzem o teor de cacau nos produtos finais.

Essa lógica permite manter o cacau nacional em patamar artificialmente baixo, ao mesmo tempo em que se protegem as margens industriais com chocolate cada vez mais barato em termos de composição (mais açúcar e gorduras, menos cacau).

O resultado é um jogo ganha‑perde: apenas um lado ganha de forma sistemática – a indústria – enquanto três lados perdem – produtor, consumidor e Estado.

No lado da matéria prima, o drawback deixou de ser apenas um mecanismo legítimo de apoio às exportações para se tornar uma ferramenta de gestão de preços internos.

Importam-se volumes expressivos de cacau, muitas vezes acima do estritamente necessário para cumprir contratos externos, inclusive em períodos de preços internacionais mais baixos, o que amplia estoques e pressiona para baixo o valor pago pela amêndoa brasileira.

Quando a escassez relativa de oferta doméstica deveria levar a preços maiores – sinal clássico para estimular investimentos em renovação de lavouras, manejo e tecnologia –, entra em cena a “âncora” da importação com isenção de tributos, impedindo que o produtor capture esse movimento.

O primeiro lado perdedor é, portanto, o cacauicultor, que permanece descapitalizado e sem condições de responder à demanda com mais produção e qualidade.Essa distorção é reforçada pela triangulação via Mercosul.

A possibilidade de combinar drawback com preferências tarifárias intrabloco permite, em vários casos, que a amêndoa importada chegue quase sem carga tributária ao longo da cadeia, configurando uma dupla isenção que torna o cacau externo ainda mais barato que o brasileiro.

Na prática, a indústria passa a dispor de um “parâmetro externo” artificialmente baixo para negociar a matéria prima, mesmo quando o produtor nacional enfrenta custos elevados de produção, riscos climáticos e fitossanitários significativos.

Em vez de reconhecer, no preço, a necessidade de fortalecer a base produtiva, o sistema premia a arbitragem fiscal e comercial, deslocando a produção nacional e aprofundando a dependência de amêndoas importadas.

No lado do produto final, essa engenharia de custos se completa com a mudança de formulações.

A legislação brasileira permite que se chame de chocolate produtos com baixo teor de sólidos de cacau, abrindo espaço para receitas com menos cacau e mais açúcar, leites em pó e gorduras vegetais baratas.

Diversas análises mostram que muitos produtos populares hoje se aproximam do mínimo legal e que boa parte do ajuste ao custo da matéria prima foi feita via reformulação, e não pela redução das margens de lucro industriais.

O segundo lado perdedor é o consumidor: paga mais por um produto que se afasta do cacau e se aproxima de um ultraprocessado rico em açúcar e gorduras de baixa qualidade, com pior sabor, menor valor nutricional e maior risco para a saúde.Essa combinação – cacau nacional desvalorizado e chocolate reformulado com menos cacau – tem consequências diretas para a saúde pública e para as contas do Estado.

Produtos com alto teor de açúcar e gorduras saturadas, consumidos rotineiramente, estão associados ao aumento de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares, especialmente entre crianças e adolescentes, para quem doces, chocolates e achocolatados são porta de entrada no universo dos ultraprocessados.

Estudos recentes estimam que o consumo de ultraprocessados custa bilhões de reais por ano ao sistema de saúde e à economia brasileira, somando gastos do SUS, perda de produtividade e aposentadorias precoces.

Além disso, essa lógica se apoia em ampla desoneração fiscal.

O uso intenso de regimes especiais e benefícios – como drawback, triangulação via Mercosul e outros incentivos tributários – faz com que grandes volumes de cacau e de produtos industrializados circulem com isenção ou forte redução de tributos, enquanto a indústria de chocolates, biscoitos e sorvetes acumula bilhões em renúncias fiscais em uma década apenas em nível federal.

De um lado, isso reduz a arrecadação potencial e desloca recursos que poderiam financiar políticas públicas estruturantes; por outro, o avanço do consumo de ultraprocessados ricos em açúcar e gorduras alimenta uma carga crescente de doenças crônicas, que já custam bilhões de reais ao sistema de saúde e à economia brasileira.

Na prática, o erário subsidia, via desoneração, a produção de alimentos de baixo valor nutricional e depois paga a conta das doenças que eles ajudam a causar.

O terceiro lado perdedor é, portanto, o Estado.

Enquanto isso, o chocolate segue como categoria importante na cesta de consumo, com reajustes acima da inflação em diversos segmentos e forte presença em datas sazonais e no cotidiano, mas esse dinamismo não se traduz em preços melhores para a amêndoa nacional.

A indústria preserva e, em muitos casos, amplia suas margens ao combinar importações baratas, dupla isenção tributária e reformulações, enquanto o cacauicultor continua sem capacidade de investir e o consumidor recebe um produto pior.

No desenho atual, só um lado ganha de forma sistemática – a indústria –, enquanto três lados perdem: produtor, consumidor e Estado.Se o objetivo do país é ampliar a produção de cacau, gerar renda no campo, oferecer chocolates de melhor qualidade à população e reduzir a pressão de longo prazo sobre o sistema público de saúde, é preciso transformar esse jogo ganha‑perde.

Isso implica revisar o uso do drawback e das preferências do Mercosul para impedir que sejam usados como instrumento permanente de compressão do preço da amêndoa brasileira; reavaliar a extensão e o foco das desonerações fiscais concedidas à indústria de chocolates e ultraprocessados; estabelecer transparência e rastreabilidade na formação de preços; revisar normas de composição e rotulagem do chocolate, valorizando produtos com maior teor de cacau; e implementar instrumentos públicos que reforcem, e não distorçam, o sinal de mercado – como preços mínimos efetivos, estoques reguladores, crédito de investimento de longo prazo e políticas de alimentação saudável que desestimulem ultraprocessados de baixa qualidade.

Somente assim será possível que produtor, consumidor e Estado deixem de ser os perdedores silenciosos de uma cadeia organizada para proteger margens industriais e passem a ser, efetivamente, beneficiários do desenvolvimento da cacauicultura brasileira.

Notícias Mais Lidas

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
post